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segunda-feira, 4 de março de 2013

6.out.2012 (10° dia)

10 dias e ainda estou em busca de entendimento sobre se isto aqui me servirá para meu crescimento espiritual. Não sei bem como agir. Há um discurso muito interessante sobre o "Programa" que, segundo muitos depoimentos, auxiliam no tratamento da adicção. Só não sei se os métodos de disciplina empregados me auxiliarão, especialmente quanto aos meus transtornos de ansiedade e depressão.
Ao menos, uma boa notícia: saí da "observação", um lugar sujo, com pessoas que são drogadas (a famosa "garapa") porque são rebeldes e não aceitam o tratamento, ou que chegaram em estado de perturbação, como eu.
Mas esta boa nova não dissipou o mal estar que sinto na vigilância constante dos monitores. Assisto diariamente a um jogo sádico e perverso de humilhação, intimidação, cerceamento, incentivo à contrariedade e à manipulação. Não consigo ver como esses mecanismos de controle auxiliam nos princípios espirituais apregoados pela instituição. Diz-se que disciplina leva à liberdade, e que a provocação para gerar contrariedade no interno visa a que ele desenvolva estratégias perante a adicção. Porém, se pessoas diferentes precisam de medicamentos diferentes, em doses diferentes, como um tratamento que retira algumas marcas identitárias importantes para os indivíduos (uma barba, um bigode, um boné, uma aliança, um brinco...) e, de certa forma, uniformiza eles, pode, efetivamente, funcionar?
Não discordo da necessidade da submissão às regras institucionais básicas, que tratam de higiene coletiva e individual, segurança e de uma convivência coletiva possível. Mas o trancamento de portas não pode, por exemplo, causar graves problemas a pessoas que sofrem de claustrofobia e certas condições de transtorno de ansiedade?
Como aceitar o que lhe faz mal sem reagir, seja pela alienação, negociação, depressão ou negação? As pessoas podem até aderir ao que lhe fazem mal, uma vez que somos providos de uma incrível capacidade de adaptação. Mas será que já foram avaliados os riscos deste tipo de tratamento?
Diariamente, tomo vários remédios, os que me tratam dos problemas físicos, dos transtornos mentais e da adicção. Não tenho resistência alguma a tomá-los. Afinal, meu internamento foi voluntário, assim como a maioria dos que estão aqui (pelo menos, uma voluntariedade "consentida"). Então, porque abrir a boca para que os monitores comprovem que não ficou nada escondido na boca?
Durante os 10 dias e 10 noites que passei aqui no "Retiro", oscilo entre a ansiedade e a depressão, principalmente quando anoitece e chega a hora de ficar trancado. As condições do quarto para onde  fui transferido são melhores que as da "observação". Mas não deixam de me parecer uma cela confortável. Fico pensando se seria assim num manicômio, num presídio ou mesmo num mosteiro. E se aqui não teria elementos comuns a essas instituições.
Por enquanto, analiso, medito e, principalmente, falo com Deus para me orientar quanto ao que fazer e falar ou não fazer e não falar. Estou numa corda bamba, mas ponho fé na rede de segurança, abaixo de mim, e na barra que seguro para manter o equilíbrio.

Não sei que horas são. No "Retiro" não há relógios, só o sino. Por isso, não sei o quanto me falta para poder ser "libertado". Deve ser mais um método do tratamento... O tempo não nos pertence, embora os monitores o controlem muito bem, através do sino e dos anúncios: "10 minutos para o cigarro..." Criei um sistema para esta situação: tenho cigarros de vários tamanhos, adequados ao tempo que nos é dado para fumá-los. Tem o inteiro (10 minutos), o médio (5 minutos), e assim por diante. Nunca pensei que as ideias sobre planejamento estratégico fossem me servir tanto aqui...

Estou em depressão...shhhhhhhhhhhh.....
O silêncio é meu escudo...
Fiat voluntas tua...


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