7.out.2012 (11° dia)

Estou, desde ontem à tarde, em depressão. Começo a cogitar que o tratamento oferecido pelo "Retiro" para drogas e álcool não contemple transtornos como a depressão e a ansiedade.
Não consigo "administrar" o estresse causado pelos horários, tratamento dos monitores (que, na maioria, considero pobres coitados, sem muita instrução e, por isso, sem opções de ocupação lá fora), além da humilhação, intimidação e coerção (por exemplo, a obrigatoriedade de participar de todas as atividades e medidas "educativas" (sinônimo, aqui, de castigo).
Dependo, na maior parte do tempo, das condições "climáticas" de humor dos monitores para conseguir algumas coisas que, de boa vontade, não teria qualquer problema, tanto individual como coletivamente.
Sinto-me encarcerado, no horário da "sonoterapia", quando nos obrigam a ir para os quartos e os trancam. Como não aderi a esta terapia - sob risco de não dormir à noite, como já aconteceu - uso o tempo para, principalmente, escrever, que é meu melhor refúgio, depois da prece e da meditação (à qual retornei a utilizar para tentar me reequilibrar de tanto estresse).
o estresse daqui é igual ou maior ao que enfrentava lá fora, no trabalho, nas contrariedades normais do cotidiano. Vim para cá não apenas pelo uso abusivo do álcool que, realmente, causou muitos danos materiais, relacionais, profissionais, familiares, conjugais e psicológicos. Alguma medida mais drástica precisava ser feita. Por isso, de comum acordo, eu e minha esposa, além de meu psiquiatra e da psicóloga que estava me acompanhando, decidimos pela internação no "Retiro". Mas em momento algum foi cogitada a possibilidade de agravamento da depressão e da ansiedade. Hoje, ao meditar em meus problemas, encaro estes transtornos como minha doença de base; e não a adicção, que é consequência de minha incapacidade de lidar com os "gatilhos" que levam a beber.
só consegui ter contato com meu Técnico de Referência (TR) duas vezes; a primeira, na anamnese, a segunda, após uma temática que o mesmo apresentou. Os monitores são intermediários e, algumas vezes, sinto que "filtram" nossa necessidade de conversar com o TR, que garantiu, durante a anamnese, disponibilidade.
Ontem, chegaram alguns mantimentos que, há 10 dias, eu insistia para chegar. Até agora, não sei se foram dificuldades de meus "anjos" lá fora ou se alguma coisa deixou de ser repassada. Acredito mais nesta segunda hipótese, pois um monitor deixou transparecer, nas entrelinhas, que, realmente, há um "filtro" para a liberação dos mantimentos (os já citados "agradinhos", nunca consegui engolir essa expressão. Qual o critério? Desconheço. Comportamento (leia-se, castigo)? Considerar coisas como saboneteira algo de pouca importância (após utilizado, não temos como guardar o sabonete, senão num saco plástico ou enrolado num papel higiênico).
A incerteza da chegada dos "agradinhos" me causa uma extrema ansiedade, pois muitos colegas me pedem, principalmente cigarro, e eu fico na conhecida "sinuca de bico": se dou, corro o risco de ficar mendigando; se não dou, corro o risco de ser antipatizado e de "represálias". Afinal, coitado de mim para confiar em alguém, neste ambiente. "Maldito o homem que confia em outro", diria minha esposa. Deve ser bíblico e tem sentido. Pela minha boa fé (Rousseau?), ainda espero o melhor das pessoas, mesmo sabendo que não posso alimentar qualquer expectativa de retorno.
Há tanto o que dizer, mas paro aqui, pois escrever sobre a cama não é muito confortável e, neste momento, é o único espaço para fazer isso. S.P.H.