Powered By Blogger

quinta-feira, 21 de março de 2013


9.out.2012
            
Apesar das várias contrariedades que sofro regularmente, creio que o dia foi bom, principalmente pela mensagem que o pastor nos passou. Identifiquei-me muito com ele, com sua motivação, sinceridade e pela capacidade de comunicação, de forma lógica e compreensível. Esperava ansiosamente pelo momento verdadeiro de espiritualidade. Não creio que este momento aconteça quando usamos palavrões. Ao falarmos sozinhos com Deus, podemos até usar qualquer tipo de palavra, sentimento ou emoção, porque Ele, mais do que ninguém, conhece-nos e nos aceita por inteiro. Mas quando compartilhamos com a espiritualidade coletiva, deveríamos escolher bem as palavras.
A mensagem e, principalmente, a ceia, trouxe-me muita saudade de meus amigos e irmãos de fé. Chorei muito por não estar congregando e receio, no meu retorno, como lidar com os questionamentos que farão. Afinal, onde eu estava? Devo declarar a dura verdade de ser um adicto? Como isso influenciaria meu filho e minha esposa? São dúvidas que pretendo esclarecer num gabinete pastoral.
Defini como meta principal estar sóbrio, dia a dia, independente das contrariedades nossas de cada dia.
8.out.2013

Tivemos um dia relativamente tranquilo, não fosse as contrariedades de sempre. Na maioria das vezes, o método chamado de “movimento contrário” é usado de forma truculenta pelos monitores. Inconscientemente, vejo que, no tratamento dos internos, sob a desculpa de usar este método, muitos acabam nos usando como válvula de escape para suas frustrações e neuroses.
Afora isso, a comunidade esteve tranquila, não percebi desavenças nem bate-bocas. os momentos de comunhão foram agradáveis.
Tive o retorno do “Porque estou aqui” e recebi alguns retornos acerca de minha arrogância e resistência a me submeter às ordens da casa. Meu TR comentou que minha adicção me leva à depressão, do que discordo. Em minhas reflexões, ocorre o inverso: minhas doenças de base, a depressão e a ansiedade, das quais me trato há mais de 10 anos é que me levam à adicção. Submetido a certas situações de estresse, às quais não consigo administrar, bate o transtorno e a fuga é o álcool. Como meu comportamento é compulsivo, acabo bebendo até não aguentar mais. Por fim, retorno á depressão, adicionada ao sentimento de culpa e às consequências materiais de ficar exposto a vários tipos de risco para minha segurança e incômodo para a tranquilidade de minha família.
Não existe Grau Zero de estresse, senão na morte. Mas não sou competente, hoje, para lidar com situações que considero grosseria e intimidação. Além dos conflitos que carrego em minha bagagem de vida, o desafio em lidar com um ambiente estressante é exaustivo.
Continuo acreditando no Amor, no afeto, na doçura, na compaixão, na compreensão, na paciência como fatores básicos para a educação. Estudei num colégio de freiras beneditinas, cujo método disciplinar se assemelhava muito ao daqui do Retiro. Foram 10 anos que, ao invés de ajudar-me a construir minha autoestima, só agravaram  meus desnorteamento, pois não recebia o que precisava, nem lá, nem em casa. Faço exceção a um ou outro professor, que me ajudaram bastante a não surtar de vez..
Reviver estes métodos, novamente não está sendo nada agradável e continuo a achar que medidas que visem à transformação de caráter de um adulto devem passar pelo discernimento e pela capacidade em desenvolver uma comunicação respeitosa. Afinal, todos merecem respeito. Eu, inclusive...

Às vezes, alieno-me para não enlouquecer. Em minha mente, em meu pensamento está a liberdade que nenhuma privação, humilhação, grades de ferro ou porta trancada conseguirá interferir. Em meu pensamento, sou livre, mesmo sendo forçado a agir quando, onde e como eu não quero.
Se isso não me levar à esquizofrenia, um mundo além dos muros deste confinamento se abrirão para mim.
S.P.H.

segunda-feira, 4 de março de 2013

7.out.2012 (11° dia)

Estou, desde ontem à tarde, em depressão. Começo a cogitar que o tratamento oferecido pelo "Retiro" para drogas e álcool não contemple transtornos como a depressão e a ansiedade.
Não consigo "administrar" o estresse causado pelos horários, tratamento dos monitores (que, na maioria, considero pobres coitados, sem muita instrução e, por isso, sem opções de ocupação lá fora), além da humilhação, intimidação e coerção (por exemplo, a obrigatoriedade de participar de todas as atividades e medidas "educativas" (sinônimo, aqui, de castigo).
Dependo, na maior parte do tempo, das condições "climáticas" de humor dos monitores para conseguir algumas coisas que, de boa vontade, não teria qualquer problema, tanto individual como coletivamente.
Sinto-me encarcerado, no horário da "sonoterapia", quando nos obrigam a ir para os quartos e os trancam. Como não aderi a esta terapia - sob risco de não dormir à noite, como já aconteceu - uso o tempo para, principalmente, escrever, que é meu melhor refúgio, depois da prece e da meditação (à qual retornei a utilizar para tentar me reequilibrar de tanto estresse).
o estresse daqui é igual ou maior ao que enfrentava lá fora, no trabalho, nas contrariedades normais  do cotidiano. Vim para cá não apenas pelo uso abusivo do álcool que, realmente, causou muitos danos materiais, relacionais, profissionais, familiares, conjugais e psicológicos. Alguma medida mais drástica precisava ser feita. Por isso, de comum acordo, eu e minha esposa, além de meu psiquiatra e da psicóloga que estava me acompanhando, decidimos pela internação no "Retiro". Mas em momento algum foi cogitada a possibilidade de agravamento da depressão e da ansiedade. Hoje, ao meditar em meus problemas, encaro estes transtornos como minha doença de base; e não a adicção, que é consequência de minha incapacidade de lidar com os "gatilhos" que levam a beber.
só consegui ter contato com meu Técnico de Referência (TR) duas vezes; a primeira, na anamnese, a segunda, após uma temática que o mesmo apresentou. Os monitores são intermediários e, algumas vezes, sinto que "filtram" nossa necessidade de conversar com o TR, que garantiu, durante a anamnese, disponibilidade.
Ontem, chegaram alguns mantimentos que, há 10 dias, eu insistia para chegar. Até agora, não sei se foram dificuldades de meus "anjos" lá fora ou se alguma coisa deixou de ser repassada. Acredito mais nesta segunda hipótese, pois um monitor deixou transparecer, nas entrelinhas, que, realmente, há um "filtro" para a liberação dos mantimentos (os já citados "agradinhos", nunca consegui engolir essa expressão. Qual o critério? Desconheço. Comportamento (leia-se, castigo)? Considerar coisas como saboneteira algo de pouca importância (após utilizado, não temos como guardar o sabonete, senão num saco plástico ou enrolado num papel higiênico).
A incerteza da chegada dos "agradinhos" me causa uma extrema ansiedade, pois muitos colegas me pedem, principalmente cigarro, e eu fico na conhecida "sinuca de bico": se dou, corro o risco de ficar mendigando; se não dou, corro o risco de ser antipatizado e de "represálias". Afinal, coitado de mim para confiar em alguém, neste ambiente. "Maldito o homem que confia em outro", diria minha esposa. Deve ser bíblico e tem sentido. Pela minha boa fé (Rousseau?), ainda espero o melhor das pessoas, mesmo sabendo que não posso alimentar qualquer expectativa de retorno.
Há tanto o que dizer, mas paro aqui, pois escrever sobre a cama não é muito confortável e, neste momento, é o único espaço para fazer isso. S.P.H.
6.out.2012 (10° dia)

10 dias e ainda estou em busca de entendimento sobre se isto aqui me servirá para meu crescimento espiritual. Não sei bem como agir. Há um discurso muito interessante sobre o "Programa" que, segundo muitos depoimentos, auxiliam no tratamento da adicção. Só não sei se os métodos de disciplina empregados me auxiliarão, especialmente quanto aos meus transtornos de ansiedade e depressão.
Ao menos, uma boa notícia: saí da "observação", um lugar sujo, com pessoas que são drogadas (a famosa "garapa") porque são rebeldes e não aceitam o tratamento, ou que chegaram em estado de perturbação, como eu.
Mas esta boa nova não dissipou o mal estar que sinto na vigilância constante dos monitores. Assisto diariamente a um jogo sádico e perverso de humilhação, intimidação, cerceamento, incentivo à contrariedade e à manipulação. Não consigo ver como esses mecanismos de controle auxiliam nos princípios espirituais apregoados pela instituição. Diz-se que disciplina leva à liberdade, e que a provocação para gerar contrariedade no interno visa a que ele desenvolva estratégias perante a adicção. Porém, se pessoas diferentes precisam de medicamentos diferentes, em doses diferentes, como um tratamento que retira algumas marcas identitárias importantes para os indivíduos (uma barba, um bigode, um boné, uma aliança, um brinco...) e, de certa forma, uniformiza eles, pode, efetivamente, funcionar?
Não discordo da necessidade da submissão às regras institucionais básicas, que tratam de higiene coletiva e individual, segurança e de uma convivência coletiva possível. Mas o trancamento de portas não pode, por exemplo, causar graves problemas a pessoas que sofrem de claustrofobia e certas condições de transtorno de ansiedade?
Como aceitar o que lhe faz mal sem reagir, seja pela alienação, negociação, depressão ou negação? As pessoas podem até aderir ao que lhe fazem mal, uma vez que somos providos de uma incrível capacidade de adaptação. Mas será que já foram avaliados os riscos deste tipo de tratamento?
Diariamente, tomo vários remédios, os que me tratam dos problemas físicos, dos transtornos mentais e da adicção. Não tenho resistência alguma a tomá-los. Afinal, meu internamento foi voluntário, assim como a maioria dos que estão aqui (pelo menos, uma voluntariedade "consentida"). Então, porque abrir a boca para que os monitores comprovem que não ficou nada escondido na boca?
Durante os 10 dias e 10 noites que passei aqui no "Retiro", oscilo entre a ansiedade e a depressão, principalmente quando anoitece e chega a hora de ficar trancado. As condições do quarto para onde  fui transferido são melhores que as da "observação". Mas não deixam de me parecer uma cela confortável. Fico pensando se seria assim num manicômio, num presídio ou mesmo num mosteiro. E se aqui não teria elementos comuns a essas instituições.
Por enquanto, analiso, medito e, principalmente, falo com Deus para me orientar quanto ao que fazer e falar ou não fazer e não falar. Estou numa corda bamba, mas ponho fé na rede de segurança, abaixo de mim, e na barra que seguro para manter o equilíbrio.

Não sei que horas são. No "Retiro" não há relógios, só o sino. Por isso, não sei o quanto me falta para poder ser "libertado". Deve ser mais um método do tratamento... O tempo não nos pertence, embora os monitores o controlem muito bem, através do sino e dos anúncios: "10 minutos para o cigarro..." Criei um sistema para esta situação: tenho cigarros de vários tamanhos, adequados ao tempo que nos é dado para fumá-los. Tem o inteiro (10 minutos), o médio (5 minutos), e assim por diante. Nunca pensei que as ideias sobre planejamento estratégico fossem me servir tanto aqui...

Estou em depressão...shhhhhhhhhhhh.....
O silêncio é meu escudo...
Fiat voluntas tua...


6.out.2012 (10° dia)



HUMILHAÇÃO
INTIMIDAÇÃO
CERCEAMENTO
CONTRADIÇÃO
SADISMO
MANIPULAÇÃO


levam a

CONTROLE

(A QUEM INTERESSA?)
(QUAL O OBJETIVO? DISCIPLINA?)

As pessoas têm necessidades diferentes
As pessoas não são iguais
Não podem ser tratadas como tijolos de arestas aparadas


Onde e como alcançar a verdadeira liberdade?



VIGIAR E PUNIR = LIBERDADE?







5.out.2012 (9° dia)

Hoje foi, para mim, o dia internacional das contrariedades. Mas o momento da atividade física e a conversa com um dos companheiros me relaxou um pouco. Continuo analisando as estratégias de poder no "Retiro". Percebo que Poder, em si e por si mesmo, é uma adicção terrível. É um dos maiores valores que o Homem persegue e que, como um certo pensador político do séc. XVII dizia, onde há agrupamento social, subjaz relações de e com o Poder. O Estado (ou qualquer instituição que estabeleça regras) rege, por leis, os relacionamentos, para que as necessidades coletivas sejam atendidas. Para isso, o indivíduo deve ter cerceados, reprimidos, alguns desejos e necessidades. Há um filme chamado "V de Vingança" (V for Vendetta) que retrata o risco do totalitarismo como regente da coletividade. E a frase que aparece na imagem congelada, ao lado (trailer do filme) dá no que pensar...
Inicio meu passo de hoje com essas considerações teóricas por experimentar, na pele, como funcionam os sistemas de controle institucionais. Há um ditado (árabe ou chinês, não me recordo) que diz: "Quem fala, não sabe; quem sabe, não fala". A questão, para mim, é estabelecer minhas estratégias de ação dentro deste ambiente hostil onde estou. Somos orientados a expor nossos sentimentos, emoções e pensamentos. Entretanto, me parece que, mesmo onde se espera um tratamento para transtornos mentais e comportamentais, devemos nos manter calados, justamente pelo medo de sofrer coerções físicas e psicológicas. Neste sentido, medo é poder. E este poder, adquirido pelo medo, chama-se terror.
O que fazer, então? Bater de frente e de forma isolada contra esta poder? Tentar, através da comunicação estratégica (leia-se, dizer o que se espera para conseguir o que se quer)? Estabelecer relações amigáveis com os guardiões deste poder (e negociar politicamente barganhas para adquirir primazias)? Usar a máscara do silêncio e aprofundar as razões doentias que me trouxeram para aqui me tratar? Qual a saída?
Recorro, mais uma vez, a Eclesiastes 3.1-8 ("há tempo para tudo"); se há tempo de falar e tempo de calar, a sabedoria deve estar em localizar, no decurso dos momentos, o momento estratégico (o famoso "pulo do gato"). É um jogo de xadrez, no qual o "Retiro" é um tabuleiro repleto de peões, bispos, cavalos, torres, um só Rei e uma Rainha invisível...
A ação é operacional, fruto das táticas derivadas da estratégia, advindas da organização do pensamento, rumo a um resultado. Espero, através das reflexões e meditações oportunizadas pelo "Retiro", aprender a lidar com situações, lá fora, longe das "torres de vigia", onde o Poder do Terror é mais patente e cruel, pois, fora do "tabuleiro", o ambiente é mais amplo e complexo.
Acima de tudo, que as experiências aqui vividas fortaleçam minha fé no meu Pai Celestial, que me trata, sempre, com Amor, Bondade, Compaixão, e não com o "Poder do Terror".
Deus é Poder! Qualquer outro poder é ilusório! Freedom for the people! S.P.H.
4.out.2012 (8° dia)

Mais um dia amanheceu e ainda estou no quarto da "observação", uma espécie de quarentena para recém-chegados, digamos "agitados". De fato, cheguei mal das pernas, embora voluntariamente e em acordo com minha esposa. Após a difícil despedida, mandaram tirar a aliança e ouvi uma voz sinistra em minha mente dizer "perdeste a família". Foi o suficiente para eu surtar.
Uma semana. De fato, devo ser um espécime muito raro para ser observado...
No mais, o desafio da adaptação continua. Tivemos bons momentos pela manhã: o louvor (que sempre é bom); a laborterapia (que ajuda a soltar meus pensamentos e sentimentos e a entrar em contato comigo mesmo); o contato com os companheiros em conversas, partilhas e música; a dinâmica de grupo proposta pela psicóloga (que, no caso, foi um cabo-de-guerra).
Esta última atividade me fez entrar em contato com a fora que lido com minhas frustrações. Sentir-me frustrado se relaciona diretamente com o perfeccionismo e autocobrança que carrego em mim.  E quando a cobrança é externa (trabalho, família, instituições), meu mundo cai. Tenho consciência de que sou muito dramático (leia-se, no jargão psicoterapêutico, histriônico). E esta é uma arma, junto à insônia, que lanço mão para responder às cobranças que não consigo atender.
Entrar em contato com minhas limitações é muito difícil. É como se eu tivesse sido programado para ser algo que acabei não sendo. Não consigo mais me doar 100% a nada, nem mesmo à minha espiritualidade. As limitações de saúde, que chegam naturalmente com a idade, e acentuadas pelos estragos que cometi, deixam-me inseguro. Sou novo demais para ser velho e velho demais para ser novo. Por uma certa lógica, eu deveria estar no auge, no equilíbrio entre maturidade e juventude. Esta lógica não valeu para mim. Um sinal disto é que aqui estou, neste quarto de observação, louco para que o sino toque, para poder me sentir, por alguns instantes até a rotina me chamar, livre (uma  liberdade condicional e vigiada, diga-se de passagem...).
Aqui no "Retiro", as pessoas chamam "carinhosamente" os mantimentos enviados aos internos de "agradinho". Meus "agradinhos" não chegaram até agora e isso me entristece, não somente pelas necessidades materiais que não são atendidas, mas principalmente pelo valor simbólico que a entrega dos mantimentos carrega: significa que alguém, lá fora, pensa em mim e em minhas necessidades, cuida de mim.
Lidar com as frustrações e contrariedades: este é o mantra que se traduz na palavra "paciência". E a única forma de adquiri-la é a prática. S.P.H.