Tive uma boa noite de sono, descansei bem, a ponto de só ouvir o segundo toque da sineta (que me faz sentir um cachorro num experimento comportamental de Pavlov). Senti-me contente, comunicativo, à vontade. Mas aí percebi que estava falando mais do que o "necessário". Isto, para mim, foi um alerta para o transtorno de ansiedade e para a exaltação do meu egocentrismo.
Tive acesso à flauta e fiquei muito contente em substituir o cigarro por ela. Trouxe-me boas recordações. Alguns companheiros pediram para que eles a experimentassem e me veio um sentimento egoísta, porque a flauta, na verdade, é do meu filho, e não queria que ninguém tocasse a boca onde ele a colocava. Depois, percebi esse egoísmo: afinal se trata de um objeto. Pedi desculpas e a ofereci, de boa vontade, aos que quisessem tocá-la. Será uma boa oportunidade para, quando sair daqui, dar uma outra flauta para o meu pequeno, que ainda fará quatro anos.
Procuro não pensar nele nem em sua mãe, pois a alegria que a existência deles trazem à minha vida pode se transformar, devido a meus transtornos de depressão e ansiedade, em algo "pesado". Trata-se de um mecanismo de negação, eu sei. Mas o momento é de minha recuperação, na esperança de estarmos juntos, na Graça de Deus.
Tive, à tarde, um momento de reparação com um monitor com o qual havia me indisposto ontem. Falei, ele ouviu. Ele falou, ouvi. E acredito que este seja o caminho. Esta experiência reforçou minha crença em Eclesiastes, 3.1-8: há um tempo adequado a tudo, inclusive o de falar e o de ouvir. Além disso, há a forma como se fala as coisas e a motivação que nos leva a falar. O momento de acertarmos o passo foi hoje, depois do almoço. Assim o foi.
Percebi que um outro monitor me tratou de forma ríspida, por uma questão administrativa boba (entrar, sair de quarto, coisas da adaptação). Tive a oportunidade de perceber que, nele,estava falando alto uma emoção relacionada a outro fato, que nada tinha a ver comigo.
Destes dois contatos, inferi que os monitores são pessoas iguais a mim, com todas as qualidade e defeitos que carregamos em nossa bagagem terrena. Entendi que a barra deles é pesada, pois são adictos como nós, precisam manter ordem e disciplina num espaço coletivo onde convivem desorientados e indisciplinados (a partir de mim mesmo); e todos têm suas próprias dificuldades (financeiras, familiares, emocionais...).
Portanto, comprometi-me a colaborar com o seu trabalho, buscando um tratamento cordial e verdadeiro, aceitando-os com toda essa humanidade deles.
Identifiquei um grande fator que dificulta minha adaptação ao "Retiro": minha velocidade. Devido à depressão e a outros problemas de saúde, venho, cada vez mais, diminuindo minha velocidade. Isso vem acontecendo nos últimos e já me causou problemas no trabalho, havendo, inclusive, perdas financeiras, de oportunidades e do tão valioso reconhecimento (o qual tanto ansiava e nunca parecia chegar). Ao dizer isto, penso na música "Tocando em frente", na qual RenatoTeixeira inicia dizendo "ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais..."
Torço para que, nesse mundo cada vez mais rápido, múltiplo, competitivo, agressivo, de pessoas que falam mais rápido que pensam, ainda haja um "lugar ao sol" para um "sapato velho", um processador ultrapassado, um verdadeiro dinossauro como eu...

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