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segunda-feira, 4 de março de 2013

4.out.2012 (8° dia)

Mais um dia amanheceu e ainda estou no quarto da "observação", uma espécie de quarentena para recém-chegados, digamos "agitados". De fato, cheguei mal das pernas, embora voluntariamente e em acordo com minha esposa. Após a difícil despedida, mandaram tirar a aliança e ouvi uma voz sinistra em minha mente dizer "perdeste a família". Foi o suficiente para eu surtar.
Uma semana. De fato, devo ser um espécime muito raro para ser observado...
No mais, o desafio da adaptação continua. Tivemos bons momentos pela manhã: o louvor (que sempre é bom); a laborterapia (que ajuda a soltar meus pensamentos e sentimentos e a entrar em contato comigo mesmo); o contato com os companheiros em conversas, partilhas e música; a dinâmica de grupo proposta pela psicóloga (que, no caso, foi um cabo-de-guerra).
Esta última atividade me fez entrar em contato com a fora que lido com minhas frustrações. Sentir-me frustrado se relaciona diretamente com o perfeccionismo e autocobrança que carrego em mim.  E quando a cobrança é externa (trabalho, família, instituições), meu mundo cai. Tenho consciência de que sou muito dramático (leia-se, no jargão psicoterapêutico, histriônico). E esta é uma arma, junto à insônia, que lanço mão para responder às cobranças que não consigo atender.
Entrar em contato com minhas limitações é muito difícil. É como se eu tivesse sido programado para ser algo que acabei não sendo. Não consigo mais me doar 100% a nada, nem mesmo à minha espiritualidade. As limitações de saúde, que chegam naturalmente com a idade, e acentuadas pelos estragos que cometi, deixam-me inseguro. Sou novo demais para ser velho e velho demais para ser novo. Por uma certa lógica, eu deveria estar no auge, no equilíbrio entre maturidade e juventude. Esta lógica não valeu para mim. Um sinal disto é que aqui estou, neste quarto de observação, louco para que o sino toque, para poder me sentir, por alguns instantes até a rotina me chamar, livre (uma  liberdade condicional e vigiada, diga-se de passagem...).
Aqui no "Retiro", as pessoas chamam "carinhosamente" os mantimentos enviados aos internos de "agradinho". Meus "agradinhos" não chegaram até agora e isso me entristece, não somente pelas necessidades materiais que não são atendidas, mas principalmente pelo valor simbólico que a entrega dos mantimentos carrega: significa que alguém, lá fora, pensa em mim e em minhas necessidades, cuida de mim.
Lidar com as frustrações e contrariedades: este é o mantra que se traduz na palavra "paciência". E a única forma de adquiri-la é a prática. S.P.H.

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