Antes de conhecer o "Programa dos 12 Passos" de duas conhecidas irmandades, às quais desfruto o prazer de participar, minha vida estava entregue à "adicção" que, para mim, representa uma doença, ou, se preferirem um termo mais "leve", uma "alergia" na qual o PRAZER inconsequente era o resultado de minhas dificuldades de encarar a vida como ela realmente é. Numa descrição que considerei interessante do livro "Só por hoje - meditações diárias para adictos em recuperação" (Narcotics Anonymous World Services, Inc., 2000, p. 39), "a vida apenas acontece e algumas vezes machuca."
Talvez não seja o seu caso, mas era o meu. Qualquer experiência à base de uma substância que me levasse a uma realidade distante dos machucados - que, muitas vezes, eu próprio me infligia - era válida, independente das repercussões que essa decisão causava em minhas relações com a família, o trabalho, em minha própria saúde física e mental, independente do "trapo humano" que me sentia depois de jornadas discutíveis.
Cheguei ao famoso "fundo de poço" na internação em um centro de recuperação (falarei mais tarde sobre isso): tive que me afastar do mundo como o concebia, para um universo paralelo, quase surreal. E, nele, fiz um "retiro deserto", onde encontrei, acima de tudo, a presença de um Poder Superior a mim, que me falou: "você conhece muita teoria a meu respeito e sobre como se deve ser; agora é o momento de colocar em prática o que você diz acreditar..."
Ao final das contas, em aproximadamente 120 dias, só restamos eu e Ele. E Ele era só do que eu precisava; o resto, como diz Fernando Pessoa, tornou-se "sombras de árvores alheias", meros instrumentos para que sua vontade se fizesse em mim. Porque eu deixei. Porque eu me entreguei (o mínimo que fosse). Porque eu confiei. Porque eu descansei. E assim, veio a compreensão da jornada até agora.

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